Artigo: Você trabalha ou só dá aula?

Artigo: Você trabalha ou só dá aula?

Iriana Custódia Koch

Todo professor brasileiro já ouviu essa pergunta. Às vezes vem de um aluno, às vezes de um parente no almoço de domingo, quase sempre sem maldade. E é justamente por não ter maldade que ela dói: revela, com a franqueza das perguntas inocentes, o lugar que reservamos a quem ensina.

Neste 15 de outubro, Dia do Professor, quero respondê-la com uma história que acompanhei de perto. É a história do professor Weber Campos de Souza, de Florianópolis.

Em 2020, o professor Weber criou uma turma de preparação para olimpíadas do conhecimento. Ninguém lhe pediu. Ele apenas acreditava que adolescentes são capazes de muito mais do que a grade curricular lhes cobra, e resolveu provar. Meu filho entrou nessa turma no 5º ano e nunca mais saiu. Ali aprendeu a ler um documento histórico, a desconfiar de uma fonte duvidosa, a defender uma ideia e, o que é mais raro, a mudar de opinião diante de um argumento melhor.

Em agosto deste ano, três equipes orientadas por ele chegaram à final nacional da 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil, na Unicamp, em Campinas. O tema era "Mulheres Cientistas, Mulheres na Ciência". Eu estava lá, como mãe. Vi meninos e meninas de 14, 15 anos discutirem a história do Brasil com seriedade de gente grande. As três equipes voltaram para casa com a medalha de cristal.

Mas o que me trouxe até este texto foi o que não cabe na medalha: os sábados de estudo, as noites de correção, as viagens, as mensagens respondidas fora de hora, a paciência de explicar pela terceira vez. O trabalho do professor tem essa característica ingrata: a parte mais importante é justamente a que ninguém vê. Talvez venha daí a pergunta.

O professor Weber não parou em Campinas. Neste mês de outubro, ele leva um aulão de vestibular para dentro do Palácio Cruz e Sousa, o Museu Histórico de Santa Catarina. Os estudantes vão revisar Linguagens e Ciências Humanas na casa que leva o nome do nosso maior poeta. E, na semana do Halloween, em vez de abóboras, a sala de aula receberá Franklin Cascaes e as bruxas da nossa Ilha.

É sempre o mesmo gesto: tirar o conhecimento de dentro das quatro paredes e devolvê-lo ao mundo. Mostrar ao jovem que a cidade onde ele mora é fonte histórica, que a cultura da sua gente é matéria de prova e de vida, que o patrimônio é dele.

Há, nessa história, uma coincidência que não é coincidência. Foi aqui, em Santa Catarina, que o Dia do Professor virou lei pela primeira vez, pelas mãos de uma professora de Florianópolis. Antonieta de Barros, filha de uma lavadeira, alfabetizadora, jornalista e primeira mulher negra eleita deputada no Brasil, é a autora da lei estadual que, em 1948, fez do 15 de outubro o dia de quem ensina. Só quinze anos depois a data se tornaria nacional. Antonieta "só" dava aula. E, dando aula, abriu caminho para gerações de catarinenses que não teriam outra porta por onde entrar.

Quase oitenta anos depois da lei de Antonieta, a escola chegou a quase todos os lugares. O reconhecimento a quem a faz funcionar ainda está a caminho.

Valorizar o professor não é mandar flores uma vez por ano. É remuneração digna, é tempo pago para preparar aula e orientar projetos, é apoio para que iniciativas como essas não dependam do sacrifício pessoal de quem as conduz. Turma de olimpíada, aula em museu, semana de cultura local: tudo isso deveria ser regra, e não façanha.

Há uma parte, porém, que cabe a cada um de nós. Cabe às famílias dizer aos filhos, em casa, que o trabalho do professor é dos mais sérios que existem. Cabe a quem foi aluno lembrar o nome de quem o ensinou a pensar. Eu lembro os meus. E meu filho, tenho certeza, lembrará o dele.

Você trabalha ou só dá aula? O professor Weber "só" dá aula, como Antonieta "só" dava. E é por isso que tantos jovens de Florianópolis sabem hoje quem foram as cientistas brasileiras, quem foi Cruz e Sousa, quem foi Franklin Cascaes. Sabem, principalmente, do que eles próprios são capazes.

Feliz Dia do Professor, professor Weber. E a todos os que, como ele, "só" dão aula.

Iriana Custódia Koch é advogada (OAB/SC 23.068), doutoranda em Direito pela Universidad Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e membro da Comissão OAB Vai à Escola, da OAB/SC.



Autor(a): Alex Ferrer



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