De fevereiro a maio de 2026, o Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), em Florianópolis, recebe “Viagem à aurora do mundo”, primeira exposição individual da artista catarinense Celaine Refosco em uma instituição museológica da capital. Vencedora do Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea 2024, o mais importante do circuito catarinense, Celaine retorna de uma residência artística de três meses na Cité Internationale des Arts, em Paris, com um corpo de trabalho que interliga questões que perpassam arte e ciência.
Sob curadoria da pesquisadora mestre e doutoranda em artes visuais Fran Favero, a mostra apresenta uma “pintura em fluxo”: obras que se expandem da tela para o espaço, da figuração à abstração, do óleo sobre tela aos tecidos translúcidos que evocam o movimento dos rios. No centro desta investigação estão os “Rios Voadores” — fenômeno natural de massas de vapor d’água que se movem pela atmosfera a partir da Amazônia e influenciam o clima de toda a América do Sul —, que permitiu à artista aprofundar questões ambientais urgentes através de uma estética exuberante.
Em suas obras, a artista traz consigo as memórias contrastantes de sua primeira infância. De um lado, a lembrança do rio e da natureza em Joaçaba — da sua vó e outras mulheres lavando roupa nas margens, das crianças coletando peixes. De outro, a escola árida e cinza. “Logo entendi que a feiúra era um projeto, pois aquilo havia sido construído para ser assim, a natureza não era assim. Eu me agarrei com a natureza, como o lugar das coisas bonitas, fáceis e simples”, relata Celaine. Durante a residência em Paris, morava de frente para o Sena e a observação do rio também entra nesse repertório. “A água do Sena vai acontecendo no meu trabalho”, diz, trazendo o movimento forte e marcante do rio para as pinturas, num diálogo com artistas que, ao longo da história, registraram as transformações incessantes da água.
Essas memórias somadas ecoam nas pinturas em tules translúcidos, em sobreposições de cores e instalações imersivas. “Gosto muito de olhar em profundidade”, explica a artista sobre sua predileção por camadas, profundidade e transparência. “É uma condição em minha obra: ir longe e através das coisas, em muitos diferentes longes.”
Da indústria têxtil ao chão do museu: uma trajetória singular
Antes de se dedicar integralmente às artes visuais, Celaine trabalhou como designer na indústria têxtil, experiência que marca profundamente seu olhar sobre os processos de confecção e as consequências globais da industrialização. “Tive contato real com o chão da indústria e com a ideia de consumo e produção”, conta a artista.
A experiência parisiense revelou uma tensão poderosa: entre a beleza das pinturas expostas nos museus e a vivência diária da observação nas ruas, onde as fragilidades e problemas sociais da sociedade contemporânea se fazem presentes. Essa consciência de mundo atravessa as obras da exposição, criando camadas de significado que vão além da contemplação estética. “A tinta é esse artífice que serve para nos iludir, para criar um teatro que a gente vai olhar”, explica Celaine.
Sua produção artística e poética transita entre desenho, pintura e instalações que utilizam suportes e materiais variados, ao explorar as discussões técnicas da execução industrial e as reinventar em uma produção em menor escala, refletindo sobre as práticas tradicionais de arte e suas possibilidades contemporâneas.
Beleza como potência revolucionária
“Viagem à aurora do mundo” — título emprestado da literatura de Érico Veríssimo — propõe que a natureza se articule no fazer poético. O trabalho de Celaine apresenta uma reflexão contínua sobre a interseção entre arte, natureza e a experiência humana, resultando em obras que convidam à contemplação e ao diálogo sobre a responsabilidade individual diante da crise ambiental.
Conforme aponta a curadora Fran Favero, as obras passam por referências que vão do pioneiro da ecologia Alexander von Humboldt ao filósofo Spinoza — que nos coloca como partes integrantes da Natureza —, da ciência climática contemporânea às memórias da infância. Nas palavras da curadora, “o processo da artista se dá por sua vivência e investigação na paisagem e no mundo: um olhar atento que observa, registra e experimenta poeticamente". Para a artista, essa relação com a natureza é também um posicionamento ético: “Acredito que à medida que se respeita a natureza, se reconhece a beleza que esse lugar tem e assim contribui-se com a serenidade e a qualidade de vida, com um mundo mais afável em convívio com a natureza”.
Um projeto idealizado e produzido por mulheres
Aspecto notável da exposição é sua equipe profissional composta por mulheres — da curadoria à expografia, passando por design gráfico, fotografia e assessoria de imprensa. “Focamos nas competências individuais e acabamos chegando nesta composição final”, observa Celaine, destacando um dado que, longe de ser casual, reflete as transformações do circuito artístico contemporâneo.
Além da contemplação: uma experiência interdisciplinar
A abertura da exposição no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC) será no dia 4 de fevereiro, às 19h30, e permanece em cartaz até 24 de maio de 2026, com visitação gratuita e aberta ao público, de terça a domingo, das 10h às 21h. Com produção executiva da Galeria Mamute, galeria de arte que representa a artista nacionalmente, além da dimensão estética, a mostra propõe uma dimensão educativa e participativa. Ao longo do período serão realizadas atividades que tornam a experiência da exposição plural e interdisciplinar, através de palestras, debates e oficinas.
Crédito das fotos: Soninha Vill
Autor(a): Rosiley Souza
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