Em novo livro, a artista Ruchita convida o público a abandonar certezas e refletir sobre quem se é em tempos de mudanças constantes

Em novo livro, a artista Ruchita convida o público a abandonar certezas e refletir sobre quem se é em tempos de mudanças constantes

Após estrear sua primeira exposição individual, “Território de Passagem”, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), a artista Ruchita lança em Florianópolis o livro “Todo momento de achar é um perder-se a si própria”, no dia 23 de julho, às 19h, na Fundação Cultural BADESC. A obra impressa apresenta fotografias que mostram grande parte da produção da artista que já trabalhou com diferentes suportes, como a fotografia em si, vídeo, instalação e performance, para propor uma reflexão sobre identidade, memória, corpo, silêncio e o desafio de não permanecer da mesma forma. O evento de lançamento na capital catarinense é gratuito e aberto ao público; na ocasião, a artista e a curadora e editora do livro, Kamilla Nunes, farão uma roda de conversa com os presentes, com interpretação em Libras.  

 

A estreia de Ruchita no MIS-SP também chama atenção para um debate recorrente no setor cultural: a concentração de oportunidades e visibilidade no eixo Rio-São Paulo. Natural de Curitiba e atualmente trabalhando em Florianópolis, a artista vê a mostra como um reconhecimento que ultrapassa sua trajetória individual e ajuda a ampliar o espaço para produções desenvolvidas em outras regiões do país, frequentemente sub-representadas nos grandes circuitos de arte. 

 

Para além dessa conquista, que é um marco por si só, Ruchita está atenta a atual época, que é  marcada por transformações aceleradas e pela pressão constante para construir versões estáveis de quem se é, fazendo com que uma pergunta ressoe para a artista: o que acontece quando cada ser humano aceita que sua identidade também está em constante  transformação? Foi a partir desse questionamento que nasceu o livro que, segundo Kamilla, registra uma pesquisa artística construída a partir de experiências pessoais e da compreensão de que encontrar a si mesmo talvez dependa justamente da disposição de abandonar certezas. "Nos trabalhos escolhidos para compor o livro, é possível perceber que Ruchita sugere reflexões como essa possibilidade de nos permitirmos perdermos-nos a nós mesmos”, observa.  

 

Conforme Ruchita, ao admitir que cada um não se conhece completamente, é possível abrir mão da necessidade de enquadramento, “aí sim, conseguimos nos encontrar de uma maneira mais verdadeira", afirma. Ela conta, ainda, que na arte acontece algo parecido. “Quando a artista se perde dentro da própria obra, ela deixa de querer controlar completamente o processo e nasce algo maior do que ela mesma". Essa reflexão traça um paralelo com a frase de Clarice Lispector, que dá nome ao livro “todo momento de achar é um perder-se a si própria”, autora com a qual Ruchita se identifica muito. 

 

Não por acaso, ao longo de seus trabalhos, ela transforma inquietações íntimas em questões universais, realçando a pressão social para construir uma identidade coerente, estável e permanentemente "pronta". Como se tudo, o tempo todo, fosse perfeito, e a imperfeição fosse um erro.  

 

No trabalho de Ruchita, o corpo deixa de ser apenas suporte para se tornar território de investigação; as marcas passam a existir como memória e crítica; e o silêncio deixa de representar ausência para criar um espaço de contemplação e autoquestionamento. "O silêncio cria um respiro, propondo que cada pessoa observe a própria trajetória e reflita sobre o que realmente lhe pertence e o que é apenas ruído externo", explica. 

 

Vivências pessoais

A reflexão ganha ainda mais força em trabalhos recentes, como na série “Alternar-se”, desenvolvida após a descoberta da diabetes. A condição de saúde de Ruchita passou a integrar sua pesquisa não apenas como experiência biográfica, mas como metáfora da vulnerabilidade humana e da necessidade permanente de adaptação. 

 

De acordo com ela, "são altos e baixos físicos, emocionais e mentais com os quais preciso lidar diariamente. A série fala justamente dessa adaptação constante, da aceitação da vulnerabilidade e da compreensão de que estamos sempre nos transformando", conta.

 

Embora tenha origem em experiências profundamente pessoais, a pesquisa de Ruchita dialoga com uma questão cada vez mais presente na sociedade contemporânea: a dificuldade de aceitar que pessoas, corpos e histórias estão em permanente mudança. De acordo com ela, apesar de ser uma era de transformações constantes, a dificuldade de aceitar essa fluidez parece cada vez maior. “Existe um apego à ideia de estabilidade que acaba produzindo sofrimento, e minha pesquisa nasce desse conflito", diz. 

 

Ações educativo-culturais

Para além da roda de conversas na noite de lançamento, o projeto prevê duas oficinas práticas de arte e escrita com Kamilla Nunes, que serão realizadas na Fundação Cultural Badesc. A primeira será no dia 23 de julho, das 13h às 16h, com o título “Paisagem São as Lembranças que Guardamos na Memória Após Termos Cessado o Olhar (ou como editar paisagens)”. 

 

Depois, no dia seguinte, 24 de julho, no mesmo horário, a oficina “Geografias Mínimas" (ou como modelar uma paisagem)”. As atividades são gratuitas, mas é necessário fazer inscrição prévia pelo perfil @maf.economiacriativa e as vagas são limitadas a 15 pessoas por oficina.

 

Tais atividades consolidam o caráter educativo do projeto e reforçam o papel da arte como instrumento de reflexão crítica, sensibilização e diálogo entre artistas e comunidade.  

 

Ao reunir diferentes momentos da trajetória da artista, a obra “Todo momento de achar é um perder-se a si própria” convida o público a desacelerar, contemplar e abrir espaço para perguntas que nem sempre exigem respostas imediatas. Em vez de oferecer definições sobre quem se é, o livro propõe reconhecer a transformação como parte da própria experiência de existir. 

 

A obra traz ainda textos críticos produzidos especialmente para a publicação pela pesquisadora e professora Sandra Meyer e pelo fotógrafo, curador e artista canadense Scott Macleay, ampliando as leituras possíveis sobre a trajetória da artista.

 

Com tiragem de 200 exemplares, o projeto contempla também uma versão digital gratuita e a produção de um audiobook voltado a pessoas com deficiência visual. Todas as atividades públicas contarão com interpretação em Libras, ampliando o acesso ao conteúdo e reforçando o compromisso da iniciativa com a democratização cultural.

 

O projeto é realizado com apoio do Município de Florianópolis, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Crédito da foto: Iara Moreselli



Autor(a): Rosiley Souza



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