ENTREVISTA: Thiago Ventura não acredita em público “morno” em Florianópolis

ENTREVISTA: Thiago Ventura não acredita em público “morno” em Florianópolis

Uma piada pode viajar o Brasil inteiro em poucos segundos, mas algumas só fazem sentido quando encontram o lugar certo para pousar. É nesse espaço entre o que todo mundo reconhece e aquilo que só quem é de determinada cidade entende que a comédia também cria intimidade com o público. E, se existe uma fama de que Florianópolis seria uma plateia mais difícil de conquistar, Thiago Ventura parece não ter recebido o memorando. “Florianópolis é um dos melhores públicos”, diz o humorista, que volta à Grande Florianópolis com A Culpa é dos Amigos, no dia 18 de outubro, na Arena Opus. 

 

Ao lado de Afonso Padilha, Dihh Lopes, Márcio Donato, Rodrigo Marques, Fabiano Cambota e Nando Viana, Ventura leva à Arena Opus o encontro de dois grupos que ajudaram a popularizar o stand-up no Brasil: o 4 Amigos e o A Culpa é do Cabral. O espetáculo reúne sete comediantes no mesmo palco, onde cada um entra em cena com seu próprio repertório e seu jeito de contar histórias. Enquanto os momentos coletivos, como a Fila de Piadas e o Jogo do Balão, colocam essas diferenças para conversar. 

 

Em entrevista à reportagem, um dos maiores comediantes do país na atualidade fala sobre as referências que moldaram sua geração, o impacto das redes sociais no stand-up e a relação dos humoristas com o público de Florianópolis. 

 

R: Vocês vêm de dois projetos diferentes que ajudaram a popularizar o stand-up no Brasil. Existe uma "escola" de humor de cada grupo? 

TV: A gente bebeu da fonte de todas as escolas que estavam disponíveis para a gente estudar. Antigamente, na cena da comédia stand-up, havia dois grandes grupos: o Clube da Comédia, em São Paulo, e o Comédia em Pé, no Rio de Janeiro. Naquela época, cada grupo tinha um estilo, porque trabalhava com formatos diferentes e aplicava uma comédia distinta.

No A Culpa é do Cabral e no 4 Amigos, isso não se aplica tanto, porque a gente tem os dois grupos como escola. Cada um bebeu dessas referências e desenvolveu seu próprio estilo. Por isso, cada comediante é de um jeito e cada grupo representa a comédia de uma forma diferente para quem assiste, mas não para quem faz. 

R: A internet mudou a forma como vocês escrevem e pensam o material? 

TV: É como se a internet fosse um aperitivo e o ingresso para o comedy ou para o teatro fosse o prato principal. A gente oferece um quitute, um docinho, para que a pessoa tenha curiosidade em conhecer o nosso trabalho. É a divulgação e a forma de crescer sem depender de outro tipo de veículo.

Existe o material que você guarda porque acha que vale o ingresso e existe aquele que você acredita que pode chegar a mais pessoas. Acho que foi isso que mudou. Quando os comediantes perceberam que a internet chegava muito mais longe, começaram a criar pensando também nessa forma de divulgação.

Mas, falando pelo grupo, a maioria preza por manter o conteúdo especial para quem compra o ingresso. Quando tem alguma coisa para divulgar, acaba colocando em formato de corte na internet, para atrair o público e, no final, fazer com que as pessoas comprem os ingressos e apareçam.

R: “A Culpa é dos Amigos” coloca no mesmo palco comediantes que já têm estilos muito próprios. O que acontece de interessante quando vocês deixam de estar cada um no seu formato e precisam dividir a mesma noite? 

TV: Quando cada comediante entra no palco, ele tem um tempo limitado para ser 100% ele, porque é isso que as pessoas esperam ao verem um show de stand-up. Eu quero ver cada um porque cada um pensa de uma forma diferente.

Então, a gente não faz um show diferente só porque vai dividir o palco. Cada um faz aquilo que tem de melhor no seu material. Os únicos momentos em que pensamos uns nos outros são quando estamos todos no palco, fazendo um quadro, como a Fila de Piadas. No momento individual, cada um faz o seu material sem necessariamente pensar no que veio antes ou no que vem depois. É o stand-up cru e puro.

R: Há a fama de que o público de Florianópolis é mais “morno” do que o de São Paulo e do Rio. Quando vocês chegam aqui, essa fama se confirma ou Floripa já provou o contrário? 

TV: Florianópolis é um dos melhores públicos. Eu não sei de onde vocês tiraram essa fama. Bom, eu falo por mim. Todas as vezes que fui para Floripa ou para a Grande Florianópolis, foi incrível. E vou aproveitar para deixar um beijo aqui para eles, porque estou esperando vocês, hein?

Cada comediante aborda temas e apresenta de forma muito individual. Então, nesse caso, sobre Santa Catarina, eu só consigo responder por mim. Eu nunca tive problema com o estado. Sempre me recebeu de braços abertos e nunca teve algum tema ou algo de que eu quisesse falar que saiu diferente.

O que eu vejo que pega muito é quando a gente fala sobre notícias regionais ou sobre algo curioso e específico da própria cidade. Quando a gente toca no assunto, acredito que eles se sentem dentro. Por quê? Porque a gente é de fora falando sobre algo que só eles conhecem. Esse tipo de coisa gera identificação, que também é um gatilho da comédia.



Autor(a): Rosiley Souza



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