A Ilha de Santa Catarina receberá, no dia 27 de junho, o projeto “Amanhecer em Floripa”, do músico catarinense Mateus Costa, que propõe um concerto inédito centrado no contrabaixo acústico e protagonizado por um artista cego. A partir das 10h da manhã, o público poderá assistir a concertos com contrabaixo solista, apresentações de dança e declamação de poesia, no jardim do Museu Histórico de Santa Catarina - Palácio Cruz e Sousa. Reconhecido nacionalmente como o primeiro compositor cego a ter uma obra apresentada na XXV Bienal da Música Contemporânea Brasileira, no Rio de Janeiro, em 2023, Mateus reúne no projeto três peças autorais e aposta na acessibilidade e na integração entre música, dança e poesia para ampliar o acesso à música de concerto.
A partir da peça apresentada na Bienal, a “Estilho”, nasceram as outras duas peças que estão na programação: “Amanhecer” e “Na Arte dos Restos”. De acordo com Mateus, a ideia do evento surgiu justamente da necessidade de dar visibilidade e reconhecimento ao contrabaixo acústico como instrumento solista e expressivo dentro do universo da música de concerto. Além, é claro, de a ideia estar alinhada aos princípios de acessibilidade, inclusão e democratização do acesso à cultura.
Isso porque, além de o projeto contar com medidas de acessibilidade comunicacional, atitudinal e programática para pessoas com deficiência (PCD), a apresentação também valoriza as produções de artistas com deficiência, contribuindo com a valorização do trabalho artístico de PCDs. Durante a execução da obra “Amanhecer”, haverá a participação do grupo de dança Bengalantes da Associação de Integração do Cego - ACIC, formado por bailarinos cegos e com baixa visão, criando uma performance interdisciplinar.
Mateus afirma que a participação do grupo amplia o impacto simbólico da ação, transformando o concerto em um ato de escuta, corporeidade e presença. “A ideia é que a arte transcenda limites sensoriais e reafirme o direito de todos à experiência estética”, observa.
O evento contará, ainda, com a intervenção cultural da poetisa Fere Rocha e essa mistura de diferentes linguagens artísticas tem como objetivo aproximar a música de concerto da população. “Integrar esse estilo de música à paisagem urbana é, também, convidar o público a vivenciar a arte em sua dimensão inclusiva e transformadora”, afirma o músico.
O contrabaixo e a música de orquestra
Mateus explica que historicamente, o contrabaixo tem sido relegado ao papel de sustentação harmônica, raramente ocupando o centro das composições orquestrais. “Em Santa Catarina essa diminuição do instrumento fica ainda mais evidente. Afinal, a produção de obras dedicadas ao contrabaixo é praticamente inexistente”, observa.
Nesse contexto, seu trabalho torna-se um marco artístico e simbólico: um compositor catarinense cego que transformou o contrabaixo em protagonista, revelando sua potência sonora, poética e simbólica. Para além desse marco, o artista reforça sua trajetória em um exemplo concreto de como a arte pode ser instrumento de acessibilidade, emancipação e equidade cultural.
Vale lembrar, também, que as partituras das composições serão distribuídas para as faculdades de música de Santa Catarina. Conforme Mateus, “ao compartilhar as partituras estamos basicamente incentivando outros artistas a realizarem novas execuções destas composições”, explica. “Dessa forma contribuímos para o fortalecimento das redes musicais e educativas de Santa Catarina e na preservação e difusão do patrimônio musical catarinense contemporâneo”, diz.
Além da apresentação presencial e a distribuição gratuita das partituras digitais para orquestras catarinenses, o projeto prevê a captação audiovisual profissional das performances e a gravação em áudio de alta qualidade. Este material será editado e disponibilizado no canal do compositor no YouTube e na Rádio UDESC, com a previsão de alcançar as seis mesorregiões do Estado.
O projeto “Amanhecer em Floripa” é uma proposta cultural selecionada no Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2025, realizada com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC). A realização é do Duo A Corda em Si com produção assinada pela MAF Economia Criativa.
Autor(a): Rosiley Souza
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