Ilha do Campeche: sítio arqueológico que emerge do mar revela vestígios da atividade baleeira

Ilha do Campeche: sítio arqueológico que emerge do mar revela vestígios da atividade baleeira

 Na Ilha do Campeche, em Florianópolis, o movimento do mar não transforma apenas a paisagem. Em determinados períodos, ele também volta a expor vestígios da história preservados sob a areia e a água. Na Praia da Enseada está localizado o Sítio Arqueológico Depositário Marinho, onde remanescentes pré-coloniais e coloniais permanecem parte do ano submersos e podem voltar a aflorar conforme as oscilações da faixa de praia. Entre eles estão traços de antigas oficinas de produção de instrumentos de pedra, estruturas relacionadas à Armação Baleeira e até as ossadas de baleias do século XVIII, que podem aparecer na linha d'água.

O sítio, cadastrado no âmbito de projeto da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em Santa Catarina, reúne vestígios de diferentes períodos da ocupação da Ilha do Campeche. Há oficinas líticas (locais onde populações antigas produziam instrumentos de pedra) e remanescentes de muros de taipa de pedra do posto de apoio da Armação Baleeira que existiu no local.


Os monitores credenciados do Programa de Visitação e Conservação acompanham e registram há anos as ocorrências arqueológicas na Ilha do Campeche. O último afloramento de materiais no local havia sido registrado em 2018. Recentemente, entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, alterações na faixa de areia voltaram a expor esses vestígios, ocasião em que afloraram cerca de 40 crânios de baleias. 


De acordo com a arqueóloga Luciana Ribeiro, com o passar do tempo, a força das marés e das grandes ressacas deslocou parte desses remanescentes para a área da baía. “A dinâmica costeira faz com que os vestígios permaneçam submersos durante parte do ano e, em outros momentos, sejam novamente expostos”, explica. Apesar da movimentação da praia, eles costumam aflorar na região central da Praia da Enseada.


Estas evidências são associadas a uma atividade econômica importante para compreender a ocupação histórica desse território. Segundo Luciana, a presença dos vestígios remete ao período em que a caça às baleias movimentava uma cadeia econômica baseada principalmente na produção do óleo, utilizado, entre outras finalidades, na iluminação pública. As barbatanas dos animais também eram aproveitadas na produção de diferentes artefatos.


Mais do que uma atividade econômica, a caça às baleias deixou marcas na própria ocupação do litoral. As estruturas ligadas a essa atividade eram instaladas estrategicamente junto às praias, desembocaduras de lagoas e áreas voltadas para o mar. “Esse material também ajuda a contar a história das pessoas envolvidas nesse trabalho, entre elas imigrantes europeus, africanos e afrodescendentes”, afirma.


A compreensão desse período é construída a partir do cruzamento entre as evidências encontradas nos sítios arqueológicos e diferentes fontes históricas, como documentos, relatos de viajantes e pesquisas sobre a ocupação colonial brasileira. “Um sítio arqueológico é sempre relevante, pois conta a história de nossos antepassados, em terra ou submersos”, ressalta a arqueóloga.


Nova gravura rupestre amplia registros da ilha

O monitoramento permanente também levou à identificação de uma gravura rupestre até então não registrada, localizada na face oeste do costão rochoso sul da ilha. A descoberta ocorreu durante uma ação de limpeza e monitoramento de resíduos realizada por monitores credenciados.


A gravura, de padrão geométrico, foi identificada pela monitora Juliana Ribeiro em uma área classificada como Zona de Uso Extensivo, conforme a Portaria nº 691/2009 do IPHAN. O achado amplia o conjunto de evidências arqueológicas conhecidas na Ilha do Campeche.

 

Para a oceanógrafa Andreoara D. Schmidt, presidente do Instituto Ilha do Campeche, entidade signatária do Programa de Visitação e Conservação, os registros demonstram a importância da presença permanente das equipes no território. “Nosso trabalho garante que evidências arqueológicas sejam identificadas, registradas e preservadas de forma adequada”, afirma.


As ocorrências reforçam um aspecto que o Instituto Ilha do Campeche considera fundamental para a relação do público com o território: a ilha não é apenas uma praia de visitação turística, mas um sítio arqueológico brasileiro que reúne patrimônio cultural, histórico e ambiental e precisa ser conhecido e respeitado como tal.


“Quando esses materiais aparecem, fica ainda mais evidente que estamos diante de um espaço que precisa ser permanentemente observado, estudado e protegido. Não é possível separar a experiência de visitar a ilha da responsabilidade de conservar esse patrimônio”, afirma Camila Ayroza, bióloga, diretora executiva do Instituto Ilha do Campeche.


Para o Instituto, esse entendimento passa pela construção de um modelo de turismo com caráter cultural e regenerativo, em que visitar também signifique conhecer a história do território, compreender a importância de seus vestígios e contribuir para sua conservação.


Mais que uma praia, um sítio arqueológico brasileiro

Experiências internacionais ajudam a mostrar como o patrimônio pode integrar a própria motivação da viagem. Na Austrália, por exemplo, há regiões visitadas para a observação dos estromatólitos, formações conhecidas como “rochas vivas”, cuja importância científica e ambiental integra a interpretação e a experiência turística desses territórios.


Na Ilha do Campeche, a proposta é fortalecer essa perspectiva: quem desembarca na ilha não chega apenas a uma praia de águas transparentes. Está entrando em um sítio arqueológico brasileiro, onde diferentes períodos da presença humana permanecem registrados nas rochas, na areia e também sob o mar.

O Programa de Visitação e Conservação da Ilha do Campeche, construído e executado de forma compartilhada por diferentes instituições e atores sociais, atua no monitoramento e na proteção desse patrimônio. O objetivo é compatibilizar o acesso público com a proteção de seu patrimônio natural e cultural, fazendo da experiência na Ilha também uma oportunidade de conhecimento, educação patrimonial e valorização de sua história.

 



Autor(a): Rosiley Souza



Voltar